Escrevendo o Desconstruindo a web

TL;DR: Escrevi um livro em 315 horas, geralmente aos fins de semana durante 2 ou 3 horas consecutivas. O processo completo durou 8 meses e foi lançado oficialmente na Rubyconfbr2016.

Como muitos já sabem, eu lancei um livro chamado Desconstruindo a web pela Casa do Código.

Eu sou meio maluco (retardado, segundo o George Guimarães) por produtividade e organização pessoal e resolvi escrever sobre como foi o processo e mostrar todas as métricas que eu coletei.

Como começou

Há muito tempo atrás, por volta de 2010, eu participei do DevInSampa. Esse era um evento muito legal que não era focado em uma tecnologia específica e tinha como única finalidade trazer vários assuntos legais da área de desenvolvimento.

Nessa época, eu pensei em fazer uma palestra que mostrasse tudo que está acontecendo no computador enquanto você acessa uma aplicação. Quando comecei a fazer um documento sobre isso, percebi que eu teria muito trabalho pela frente e comecei a procrastinação. Fiquei bastante tempo nesse estado… Demorei tanto que o DevInSampa morreu no meio do caminho. :(

A procrastinação durou até o meio do ano de 2015, quando o Bruno Costa me chamou para palestrar no DevInSantos! Até o nome do evento era parecido, era uma segunda chance para fazer a palestra perdida.

Após aceitar o convite e dar um tema aleatório, eu comecei a fazer as pesquisas sobre o que eu poderia falar. Essa pesquisa me levou a conclusão que mostrar tudo que acontece em uma requisição web seria uma boa ideia. Depois de pensar um pouco, o melhor tema que eu consegui foi “Desconstruindo a web”.

Depois de algumas semanas fazendo os slides e pouco mais de 40 horas de pesquisa, eu finalmente terminei os slides da apresentação. Ao terminar, percebi que havia muito conteúdo para uma palestra de 50 minutos. Eu que sempre preferi que as palestras tivessem apenas 30 minutos, agora estava reclamando que o tempo não era o suficiente para o conteúdo. Isso me fez pensar que talvez essa não fosse a mídia correta para expor todo esse conteúdo.

Fiz a palestra e a recepção foi boa, mesmo com a velocidade alta que eu tive que falar para terminar a palestra a tempo. Apesar disso, saí do evento convicto que eu precisava de outra mídia para passar tudo que eu tinha estudado. E foi aí que uma velha ideia voltou para a minha cabeça: “E se eu escrever um livro?”

A ideia

Escrever um livro é um objetivo de vida para mim, portanto eu sempre estava pensando em como atingi-lo. Uma das ideias era escrever um livro de fantasia usando self-publishing em algum momento da vida, mas depois de ver a quantidade de conteúdo que a palestra gerou, surgiram algumas ideias. O conteúdo já estava estruturado e eu já tinha ideia de quase tudo que queria mostrar, bastava colocar em palavras e imagens.

Consegui entrar em contato com o Adriano Almeida da casa do código por indicação do meu amigo Vinicius Baggio e apresentei o material que eu já tinha e as ideias para o que ele poderia ser. Ele gostou do material e me passou as condições para continuar o trabalho.

A preparação

Nessa época eu estava começando a trabalhar em um projeto freelancer para uma empresa de fora do Brasil, além do meu trabalho em tempo integral para a Locaweb. Eu precisaria organizar o meu tempo para trabalhar no livro, além de manter essas atividades.

O único tempo que eu tinha eram algumas horas durante o fim de semana. Com isso, para trabalhar nesse projeto eu precisaria alinhar com a minha esposa e saber se ela estava comigo nesse meu novo projeto. Depois de combinar com as partes envolvidas e fazer o meu planejamento, era hora de começar!

O processo de escrita

Comecei a trabalhar no livro logo no começo do ano, sendo que a primeira versão do prefácio foi escrita no dia 9 de Janeiro. Eu mantive uma planilha no Google Docs para contabilizar todas as horas que eu trabalhasse nele. Lá eu também registrei o que eu estava fazendo durante as horas que eu estava trabalhando.

A planilha era uma forma bem simples de eu guardar um log do que eu estava fazendo. Simples assim:

Planilha simples de controle de horas

O último dia de trabalho registrado na planilha é 14 de Agosto de 2016, que é o dia que eu considero terminados todos os trabalhos relacionados ao livro.

Por ter essa planilha, eu consigo fazer alguns gráficos interessantes. A partir de agora, vou utilizar os dados que eu extraí de lá para mostrar mais sobre o processo de escrita.

Dias trabalhados

Quando trabalhei mais

A maior parte do tempo que eu escrevi foi nos finais de semana, que somam 50% do trabalho no livro. Minha ideia era trabalhar cerca de 3 horas consecutivas no livro. Essa quantidade de horas é o máximo que eu consigo trabalhar em total concentração.

Eu sempre busquei ambientes livres de distração, mas depois de ler o Deep Work (que eu recomendo para todos!) eu melhorei ainda mais a minha forma de trabalhar.

Sempre que começava a trabalhar, eu avisava a minha esposa que eu ficaria incomunicável por algumas horas. Durante as próximas 2-3 horas, não haiva comunicador, e-mail, celular ou qualquer outra coisa que pudesse tirar a minha atenção.

Eu tenho uma playlist no Google Music só com músicas que me ajudam na concentração. Quando não estava usando essa playlist, eu usava apenas barulho de chuva com o site rain.today. Quem me conhece sabe que eu não sou de comprar fones de ouvido caros, portanto eu tenho um fone vagabundo e uso sons desse tipo para me isolar do ambiente.

Horários que eu trabalhava

Horário de trabalho

O horário que eu mais iniciei foi as 18 horas. Geralmente aos domingos, era o momento que eu já tinha aproveitado uma boa parte do dia com a minha esposa e trabalhava até começar o episódio de Game of Thrones na HBO. :D

Mas tem início em quase todas as horas do dia.

Horas por dia

Horas por dia

Esse gráfico foi um pouco assustador para mim. Durante o feriado de Corpus Christi, que aconteceu no dia 26 de Maio, eu estava sozinho em casa e aproveitei para trabalhar no livro. Em um dos dias desse “feriado prolongado” eu trabalhei 12 horas no livro, que está representado como aquele ponto entre 26 de Maio e 12 de Junho.

Durante essas datas, eu só sai de casa umas 2 vezes para comprar comida, o resto do tempo foi pesquisando e escrevendo. Eu não tinha nenhum deadline, apenas a vontade de pesquisar e escrever. Isso me fez pensar que eu tenho sorte de ser casado, porque senão eu seria mais maluco que o normal.

Horas por mês

Horas por mês

Eu estava bem curioso para saber como foi a distribuição de horas durante os meses. Como eu esperava, o mês de Julho tem uma grande quantidade de horas. Isso aconteceu porque eu decidi mandar para a Rubyconf a palestra que inspirou o livro, e ela foi aceita. Esse fato colocou um deadline no livro. :)

Após conversar com a Casa do código, combinamos que eu precisaria entregar o conteúdo até o dia 7 de Agosto para que o livro ficasse pronto a tempo da conferência.

Durante os fins de semana do mês de Julho eu trabalhei cerca de 14 horas por fim de semana escrevendo. Apesar de ser um pouco cansativo, eu estava bem feliz por estar trabalhando no projeto e não me desgastei muito.

Como o prazo era relativamente apertado, eu decidi tirar horas na semana para fazer isso também. Com essa escolha, eu precisei negociar umas “férias” do projeto que trabalho como freelancer e que toma cerca de 2-3 horas diárias do meu tempo.

O que compõe a escrita de um livro

Eu sempre tive curiosidade da quantidade de tempo que um escritor gasta nas atividades de escrever um livro e me usei como cobaia para entender um pouco.

Atividades

Escrever é só uma das atividades de um escritor, assim como digitar é só uma das atividades de um programador. Apenas 42% do tempo foi gasto organizando as palavras e escrevendo da melhor maneira possível.

O tempo de pesquisa está bem ligado com o tempo de escrita, consumindo 12% do tempo total. Infelizmente eu não separei exatamente a quantidade de horas que eu gastei com pesquisa, portanto, é possível que parte do tempo considerado como escrita também seja pesquisa. Eu aprendi muito no processo! :)

Eu decidi fazer todos os desenhos, o que tomou 7% do tempo. Eu não sou muito bom com desenho, mas fiquei contente com o resultado final. Eu utilizei muito Inkscape e um pouco de GIMP para trabalhar com as imagens do livro. Para a imagem do “mapa”, que é meio “quem é esse Pokémon?”, eu criei um script Python que usa Cairo e rsvg para manipular os gráficos SVG do Inkscape e gerar as imagens na sequência que eu esperava.

Era importante criar um site para o livro, pois todo o estudo é baseado em uma URL. Por esse motivo eu gastei 6% do tempo na criação dessa página. Não foi um processo complicado, mas eu queria que ficasse exatamente como eu esperava.

Outra dúvida que eu tinha era sobre a reescrita de conteúdo e eu descobri que os primeiros capítulos geralmente são reescritos. Utilizei 6% do meu tempo para reescrever os primeiros capítulos, que já não pareciam com a continuação do livro. Só é preciso saber a hora de parar, senão fica igual refactoring infinito de código.

Revisão é uma parte importante do processo e consumiu 25% do tempo total. Eu chamei 4 revisores técnicos competentes para me ajudar no processo (obrigado novamente Milhouse, Daniel Sousa, Mateus Linhares e Vinibaggio) que sempre me davam suas opiniões sinceras sobre o conteúdo. Além disso eu contei também com uma revisora da casa do código, que acompanhou a escrita de cada capítulo e me dava dicas sobre a escrita e didática.

Eu resolvi pegar uma semana de férias antes da entrega do livro para trabalhar nele em tempo integral. Ele já estava completo e durante essa uma semana eu trabalhei em revisão. Essa revisão não era igual as que foram feitas durante o processo de escrita e sim uma revisão geral para ver se o conteúdo não estava duplicado entre os capítulos e se estava sendo mostrado de uma forma coesa.

A entrega

Eu mantive o livro em segredo durante todo o processo de escrita. Apenas um grupo seleto de pessoas sabiam que eu estava escrevendo, para evitar expectativas. Minha meta era publicar o livro na Rubyconf no dia 23 de Setembro, no final da minha palestra.

A casa do código colocou no site deles no começo do mês, mas não divulgaram em nenhum lugar. Alguns amigos descobriram e eu pedi para não divulgarem por enquanto. Ver o livro no site deles e não divulgar foi algo bem difícil, mas eu consegui me conter até o dia 23.

Depois da minha palestra eu mostrei o livro e foi uma sensação fantástica mostrar para todos os amigos um trabalho que eu tanto me orgulho. Foram 315 horas e 8 meses de trabalho que valeram a pena.

Conclusão

Não escrevi esse livro com a finalidade de ganhar dinheiro. A primeira dica que um amigo me deu quando eu disse que ia escrever foi: “Você sabe que financeiramente não compensa, né?“.

É sempre bom ter uma segunda renda para remunerar essas 315 horas investidas, mas não foi o principal motivador da minha escrita. Pode parecer bobo, mas eu escrevi esse livro por que eu realmente acredito que ele vai ser útil para as pessoas.

Esse é o primeiro livro e provavelmente não será o último… Que venham os próximos! :)